24 março, 2009

O besteirol de Ruth de Aquino

Em sua coluna do dia 20 de março, a colunista da revista Época, Ruth de Aquino, escreveu um artigo no mínimo absurdo sobre ciência. Ao longo do texto ela critica o caráter óbvio de alguns trabalhos, que só serviriam para confirmar o senso comum ou para produzir resultados estapafúrdios.
Pois bem, pelos argumentos expostos pela jornalista(?) percebe-se que ela nada entende de ciência! Se fosse para respeitar o que o senso comum qualifica como óbvio, estaríamos até hoje pensando que a Terra é quadrada, afinal, esse era o senso comum sobre a pauta à época. A natureza da ciência é justamente sua mutabilidade, o que parece óbvio hoje, pode não ser assim tão óbvio quando examinado de outras maneiras e com novas metodologias. Há cerca de doze anos atrás, quando eu cursava o ensino médio, lembro-me muito bem do professor de biologia dizendo em uma aula sobre vírus que tais organismos tinham somente um tipo de ácido nucléico: ou possuíam o DNA OU o RNA. Hoje, como professora de biologia, já tenho uma outra informação para os alunos; agora se sabe que os vírus podem ter somente um ácido nucléico, mas podem muito bem apresentar os dois tipos também. Se fosse enumerar, teria ainda muitos exemplos para apresentar à jornalista.
Creio que para tornar público um texto tão infeliz, Ruth deve ignorar os valiosos avanços que a ciência produz diuturnamente. Como exemplo de tais avanços, podemos citar a recente descoberta feita por uma equipe da Universidade Duke (EUA) liderada pelo brasileiro Miguel Nicolelis, sobre um tratamento alternativo para o mal de Parkinson. A notícia é fresquinha e uma jornalista que trate de ciência em uma revista de ampla circulação deveria estar informada, mas pelo exposto no texto, ela ainda não deve saber da boa nova. A autora do texto parece basear sua opinião em generalizações a partir de uma meia dúzia de trabalhos, que aposto que ela nem sequer leu o original. Sua opinião é baseada apenas naquilo que outros jornalistas (tão equivocados quanto ela) escreveram sobre os estudos.
Enfim, acho uma irresponsabilidade por parte de alguns jornalistas (veja bem, eu disse alguns, sem mais generalizações, por favor!) transmitir à nossa já tão desinformada população informações desse tipo, que só fazem desprestigiar uma área tão importante na vida de todos, como é o caso da ciência.
Mais posts sobre o assunto em: Brontossauros em meu jardim, Discutindo Ecologia e Rainha Vermelha.

3 comentários:

Gustavo A.F. disse...

Inclusive a revista Época da mesma edição do dito texto infeliz de Ruth de Aquino dedicou algumas páginas para o cientista brasileiro Miguel Nicolelis...talvez seja por isso que ela não estava sabendo, só deve ter lido depois.

Michele Gravina disse...

Caro Gustavo,
mesmo que ela não soubesse da notícia em questão, não justificaria a idéia que ela veiculou através da revista, pelos vários outros motivos expostos, tanto no meu texto, quanto nos vários outros publicados em reação à matéria.
Abraço!

Axel Pliopas disse...

Eu não sei se a tal Ruth Aquino é jornalista de formação ou não... mas acho que esse assunto aí é um bom gancho para uma outra crítica: a de jornalistas que são formados em.... jornalismo. Sem uma formação complementar, para realmente entenderem do tema que irão tratar, os jornalistas tornam-se presas fáceis a modismos e noções comuns de todas as espécies. Talvez isso seja deficiência dos cursos de jornalismo em si, que um mínimo de formação filosófica deveria prover, ensinando o que de melhor a filosofia humana produziu em termos de cuidados reflexivos...

Realmente, é triste ver que os veículos de grande circulação, que algo deveriam fazer para ajudar a compensar a falta de informação e cultura neste país, colaboram para silenciar o pouco que temos de bom...